quinta-feira, 16 de abril de 2015

As Marias



Eram três belezas,
Deusas da sublime realeza,
Adoradoras do tempo,
Governadoras dos ventos.

De olhos postos para o passado,
Com olhar de lince assas profundo,
Volviam os mistérios do mundo.

Eram três Marias,
Que caminhavam lado a lado,
Brincavam com as horas, 
Soltando as eras, 
Qual veloz cavalo alado.

De olhos postos para o futuro,
Transpassavam as barreiras do muro.
Sem turvar a visão,
Reservavam a esse tempo,
A mais nobre aspiração.

De olhos postos para o presente,
Nos diziam: jamais se ausentem!
Derramavam bênçãos nessa estação,
Convocando os homens à transformação.



Da Liberdade em sociedade



Os direitos e as liberdades não são inerentes ao homem como tal... Foi a sociedade que consagrou o indivíduo e o tornou eminentemente digno de respeito. A sua emancipação progressiva não implica um enfraquecimento, mas antes uma transformação dos laços sociais... O indivíduo submete-se à sociedade, e essa submissão é a condição da sua libertação.
A liberdade consiste, para o homem, na sua libertação das forças físicas, cegas e irracionais; consegue-o opondo-lhes a grande força inteligente que é a sociedade, sob cuja proteção se acolhe. Colocando-se sob a proteção da sociedade, torna-se também ele, até certo ponto, dependente dela. Mas esta dependência é libertadora.
Constitui, pois, um erro básico acreditar que a autoridade moral e a liberdade opõem e se excluem mutuamente; uma vez que o homem só obtém a liberdade de que goza devido ao fato de ser membro da sociedade, tem de se sujeitar à autoridade moral que a existência da sociedade pressupõe. Isto não constitui um paradoxo, pois ser livre não é fazer o que nos agrada, é sermos senhores de nós mesmos.
A disciplina, no sentido do controle interior dos próprios impulsos, é uma componente essencial de todas as regras morais. A perspectiva que equipara inerentemente a disciplina a uma limitação da liberdade humana e da auto-realização do homem é errônea. Não há nenhuma forma de organização da vida que não obedeça a princípios regulares e bem definidos; o mesmo acontece em relação à vida social.
A sociedade é uma organização das relações sociais, implicando, portanto uma regulamentação do comportamento de acordo com os princípios estabelecidos, que na sociedade são obrigatoriamente as regras morais. Só a aceitação da regulamentação torna possível a vida social, permitindo ao homem colher os benefícios que a sociedade lhe faculta. 

Durkheim em Capitalismo e a Moderna Teoria Social de Anthony Giddens (p.170-171).


domingo, 29 de março de 2015

Mulheres em foco



Há muito que se conquistar para uma total emancipação da mulher, na atualidade apesar do que preconiza os direitos humanos, ainda temos cenários que apontam para uma  total subjugação feminina, chegando  as raias da clitoridectomia realizadas em alguns locais da África, no Oriente médio e no sudeste asiático, nos negando o direito  sobre o próprio corpo e qualquer possibilidade de prazer que lhe seja associado.

Corpo esse que segue sobre muitas circunstâncias sendo para muitos homens alvo e objeto de perversa manipulação, como se fossemos peças de vulgar coleção da qual querem extrair prazer irrestritamente. Assim temos o dever de sobretudo reconquistar o corpo como propriedade nossa, fora o que ainda temos por alcançar como maior espaço na política e em todos os setores da sociedade em que estamos ou iremos nos inserir.

Em meio a esse cenário, a insurgência de pessoas como a modelo somali Waris Dirie que vem denunciar a circuncisão feminina, da ativista paquistanesa Malala Yousafzai que vem a público reivindicar o direito a educação em seu país, além da presença de mulheres na presidência, em cargos ministeriais, delegadas, policiais entre tantas outras, nos dão testemunho de que estamos apesar de todos os reveses caminhando em direção ao avanço de que tanto necessitamos.

São muitas as lutas e muitas as guerreiras de longa data, professoras, enfermeiras, domésticas, mães, mulheres do lar, entretanto, já não queremos ser heroínas super dotadas com tripla jornada, queremos ao nosso lado quem possa conosco andar de cabeça erguida e mãos dadas na estrada... Temos caminhado e ainda há muito que caminhar nessa tão desejada e fundamental conquista de uma autonomia não apenas financeira, mas intelectual e emocional, total, completa, inteira! 


quarta-feira, 4 de março de 2015

Disciplina





Distante de ser uma força repressora que nos enquadre em algum comportamento idealizado, tolino a genuína expressão individual, a disciplina é uma fundamental companheira para que possamos caminhar com liberdade, realizar, transformando o ideal em realidade. Somente a partir dela é que podemos nos estruturar, organizar as demandas do cotidiano, fazer planos futuros mais maduros contando com o aprendizado até então assimilado.

Com a disciplina aprendemos que não é preciso fazer tudo a um só tempo, não é preciso exaltação, necessário é fazer um pouco a cada dia, começando pelos alicerces a fim de garantir boas bases para a construção. No cotidiano ela se desenvolve a partir da organização que busca estabelecer prioridades a fim de cumprir as demandas postas para si, sendo fundamental desenvolver o senso crítico, a capacidade de auto-análise para verificar de tempos em tempos se a direção que estamos tomando está em consonância com as nossas aspirações.

A disciplina é companheira da esperança que tanto lhe dá força, energia, fé para continuar renovando o íntimo, nos impelindo a seguir em frente, acreditando, se dedicando, se reanimando depois da luta, sem se deixar abater ou se entregar. De conduta ilibada, a disciplina é unida à verdade, por isso tem o pensamento claro, reto, lúcido, sempre baseado na sinceridade, por ser honesta não tem predileções por si, assim, não procura se poupar, agindo sempre em favor da justiça sem receio de se prejudicar. A disciplina é a chave que abre a porta para uma verdadeira liberdade, sem  a qual não se é livre e sim escravo, afinal como disse Azevedo "Liberdade sem disciplina é escravidão", assim, ela é a estrada segura por onde caminhar quando buscamos crescer rumo a uma real emancipação.




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Carnaval: festa democrática?




Mais um carnaval em Salvador, arquibancadas e camarotes construídos, praças e patrimônios cercados para evitar depredações, iluminação extra instalada no decorrer dos circuitos e nas proximidades, banheiros químicos distribuídos estrategicamente, contudo sempre aquém da demanda populacional, televisão, jornais, outdoors e todos os meios possíveis de comunicação com propagandas de blocos mil e mercados abarrotados de cervejas e outras bebidas alcoólicas.

Barracas instaladas por todo o percurso, vendedores oficializados para não serem autuados e também clandestinos preparam-se para dormirem literalmente na rua durante a festividade. Tais vendedores podem para evitar a exposição, caso não possam deixar seus filhos com parentes ou amigos de confiança, colocá-los em abrigos oficiais durante o período, o que por parte do órgão público vale como uma das medidas preventivas contra o trabalho infantil, a qual habitualmente falha e via de regra costuma ocorrer, uma vez que a família incorpora a criança como mais um trabalhador dentro da economia carnavalesca.

CORDEIROS: A gente que separa gente de gente

Os dias de festividade se seguirão e enquanto uns pulam e divertem-se embalados por grandes hits não apenas do axé como de diversos segmentos, outros trabalharão arduamente, catadores irão recolher as latinhas e os cordeiros claro estarão presentes... Este ano os cordeiros continuarão a lutar para garantir os seus direitos básicos, como fornecimento suficiente de água para beberem durante os exaustivos percursos, protetores auriculares e luvas, além da oferta de um lanche digno. Sabemos que critérios para exercer a função nem sempre ocorrem, por isso se vê de tudo, menores de idade, mulheres, idosos e até grávidas, realmente como diz a música, acredito serem os mais valentes nessa luta do rochedo com o mar♪. 



 Durante a contratação, enquanto alguns blocos (os de grande porte) já emitem quatro vias de contrato e cumprem os seus deveres ainda que muito aquém do ideal, outros provavelmente nem contrato fazem. A existência de um sindicado dos cordeiros, ainda que contando até o ano de 2013 com apenas oito mil dos cinquenta que trabalhavam na festa já é um avanço da categoria que quem sabe futuramente ganhará uma cadeira (já reivindicada) no conselho municipal do carnaval, é preciso dar voz e vez a esses que se tornaram fundamental na atual dinâmica carnavalesca, ainda que tal função lamentavelmente remeta a vergonhosa herança escravocrata que mais dia menos dia precisa sim é ser superada.  Vale a pena conferir o documentário Vida de Cordeiro lançado em 2008, apesar de terem havido algumas mudanças, significativa parte dessa realidade continua a mesma.


BEBENDO E...

No carnaval bebe-se e muito álcool, bebe-se para se animar e esquentar para a festa, bebe-se para continuar animado e depois já alcoolizado bebe-se e nem se sabe mais para quê. Também se beija muito, é o famoso “ficar”, fica-se daqui e de lá, existem gandhys por exemplo que nem vão até o bloco, saem e ficam nas cordas de outros trios para paquerarem as moçoilas trocando os famosos colares por beijos, claro que os tradicionais seguem com o bloco embalados pelo afoxé.  

Tal clima de paquera permeia toda a festividade, claro que mesmo os beijos quando alcançam uma proporção épica podem trazer alguns reveses à saúde como transmissão de doenças, contudo sem entrar nessa seara ou na discussão dessas relações meramente objetais, o que deve valer é a vontade de ambos para o beijo porque caso se dê a revelia ai já implica em ato delituoso merecidamente passível de punição. 

Em um clima permissivo, regado a álcool e outras drogas, regido pela exacerbação do prazer que deve ser desfrutado ao máximo, em todo o seu potencial, alguns foliões passam do beijo e apesar de preservativos serem distribuídos no decorrer dos circuitos, apesar desses esforços, por motivos mil, mesmo assim, lá para setembro/outubro nascem os "filhos do carnaval" (se não forem abortados) e saber quem é o pai pode se tornar um enigma muito difícil de ser desvendado.

Durante a festa também postos de testagem rápida de HIV/Aids são instalados (o que efetivamente possui baixíssima validade, uma vez que se contraído durante o carnaval, não haverá tempo de detecção e os que já são portadores não me parecem ter nessa ocasião momento propício para saberem dessa notícia e sim dirigindo-se aos centros de testagem que oferecem um real suporte psicológico e de acompanhamento medicamentoso).


MÚLTIPLAS INTENÇÕES...



 As pessoas que vão para essa festividade são de mil matizes, a maioria realmente quer se divertir e desfrutar dos prazeres legítimos e outros tão urgentemente necessários quanto descartáveis. A maior parte acredita que beber (muitas vezes bastante) é indispensável, muitos jovens saem com seus amigos, àquela turma boa, querendo mesmo é “pular”, “ficar”, “curtir’... Entretanto, existem os que saem não só com o coração armado, mas também com as mãos, com sede de sangue, pensam em roubar, brigar, agredir, se vingar, o que inclui até mesmo matar, aproveitando o volume da multidão para agir e facilmente se despistar. Os boletins dos hospitais, especialmente de urgência e emergência, assim como dos postos colocados ao longo dos percursos são lamentáveis e as imagens que com certeza os programas sensacionalistas mostrarão também serão.

 Mesmo com policiais na rua (trazidos inclusive do interior para a capital) pretendendo coibir atuações criminosas e violentas, estes não são capazes de conter completamente tais ações e pela própria formação truculenta também acabam por atuar mais na repressão do que na prevenção tendo como maior base de intervenção a violência. Alguns policiais despreparados (quero acreditar/sonhar que uma minoria) abusarão do poder e baterão a torto e a direita majoritariamente em jovens negros, tendo claramente como pano de fundo questões socioeconômicas e raciais.

Durante as ações o tráfico de drogas é um dos elementos que despontam nas apreensões, apesar do encarceramento atingir mais fortemente os não abastados, o tráfico permeia todas as classes sociais envolvidas na festividade também circulando nos camarotes mais requintados, camarotes que diga-se de passagem chegam ao cúmulo de conseguir concessão para serem erguidos em plena praça pública, utilizando um espaço de direito do cidadão para fins particulares, revestindo valor desproporcional ao ganho à esfera pública pela sua utilização.


QUARTA-FEIRA DE CINZAS
   
 Depois de tanto pular e outros de trabalharem, a quarta-feira de cinzas chegará, aqueles que trabalharam juntamente com os que não tiveram condições de retornar para casa e dormiram na areia, ficarão para participar do inacreditável arrastão... Como sempre os banheiros químicos não darão conta das multidões e os jatos de água e sabão serão aquém do necessário, assim, somente a chuva poderá lavar efetivamente esta cidade, arquibancadas e camarotes começarão a ser desmontados e se não forem devidamente cobrados pelos órgãos de fiscalização, demorarão em fazer a cidade voltar à normalidade tendo o engarrafamento como um dos mais desagradáveis efeitos colaterais (desde a construção até o desmonte).

Carnaval é uma festa onde as diferenças (positivas e negativas) construídas ao longo da história se apresentam em poucos dias, por isso, ficam tão ampliadas às alegrias e tragédias. É mesmo urgente pensá-lo e refleti-lo em nível de Brasil, para que nos conhecendo melhor possamos propor as mudanças mais que necessárias inclusive pensando meios cada vez mais efetivos de coibir que brasileiros ou estrangeiros saiam de seus estados ou países e usem esse momento para fazerem turismo sexual, soltarem suas feras, deixarem seus lixos e depois voltarem para suas casas  nos deixando com feridas que tornam a ser reabertas a cada fevereiro e não cicatrizam jamais por não deixarem de fazer vítimas. 


Interessante o dado da pesquisa divulgada no ano de 2013 pela secretaria estadual de cultura em parceria com a superintendência de estudos econômicos e sociais da Bahia que revela que 77,9% dos soteropolitanos não participam da festa momesca, viajando ou permanecendo em casa assistindo pela TV, pelo jeito carnaval tem se tornado uma festa para visitantes. 


EM FIM...

Brincar com responsabilidade, na pipoca, no bloco, no camarote, tomar cerveja para refrescar (ainda que água, especialmente de coco e sucos sejam além de refrescantes, hidratantes, justo oposto do álcool), beber socialmente, sem fazer disso a mola propulsora para se sentir bem e se divertir, manter o coração desarmado, a mente consciente sem o direito de perder a lucidez e agir com insânia, sem ressacas físicas ou morais parece ser o modo mais equilibrado de vivenciar este período que nos convida a exacerbações... Apesar das peculiaridades de cada estado em comemorar, precisamos saber o que significa ser o país do carnaval e estar entre as cidades que promovem a festa. Para quem sabe brincar e vai para o carnaval divirta-se e muito, para quem é de descanso, aproveita o período para recarregar as baterias, do modo que melhor aprouver  bom período carnavalesco para todos!!